METAIS PESADOS ENCONTRADOS NAS ÁGUAS DO RIO PARAOPEBA
Um reflexo do descuido de uma sociedade que ao longo vem explorando insustentavelmente os recursos naturais e deixando rastros de degradação em nossas águas
A bacia hidrográfica do rio Paraopeba, fornecedora de água, alimentos, insumos para a construção civil da RMBH, e minério de ferro para o mundo todo, encontra-se intensamente degradada, o que reflete na poluição e ocorrência de substâncias químicas em suas águas. A despeito dos pedidos de socorro do rio, os investimentos públicos são incipientes e desproporcionais à necessidade de recuperá-lo.
Essa é uma das conclusões do Plano Diretor das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba, documento ora em elaboração pelo Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba – CIBAPAR juntamente com a HOLOS Engenharia Sanitária e Ambiental. O Plano Diretor é um instrumento de planejamento previsto numa lei específica para a questão das águas: a Política Pública das Águas (Lei Federal no. 9.433/97). Dentre os fundamentos da referida Lei, encontra-se a adoção da bacia hidrográfica como território de implementação da política pública, a participação da sociedade na gestão das águas por meio dos Comitês de Bacia Hidrográfica - CBH, e a descentralização das ações e decisões ao nível da bacia. A Lei também chama atenção para os valores social, ecológico e econômico das águas.
Para o Secretário Executivo do CIBAPAR, o Engenheiro Civil e Sanitarista Dr. Mauro da Costa Val, a sociedade da bacia “perdeu tempo” com ações não planejadas, além de uma exploração de recursos naturais sem compensar os “passivos” que essa exploração veio causando. Assim, a situação da bacia hoje, tanto em termos de qualidade como de quantidade das águas é crítica de um modo geral, o que indica a necessidade de ações e investimentos que poderiam ser prevenidos no passado. “É preciso um grande esforço conjunto, com ações de curto, médio e longo prazos, por parte do poder público, dos usuários de água e da sociedade em geral para minimizar esse quadro. Antes de tudo, porém, é preciso conhecer melhor o ‘jogo das águas’ na bacia, por meio do cadastro de usuários e monitoramento”, destacou Costa Val.
A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARAOPEBA
A bacia hidrográfica do rio Paraopeba é muito importante para o estado de Minas Gerais como um todo, sobretudo a Região Metropolitana de Belo Horizonte, que tem 53% da sua população servida por águas dessa bacia hidrográfica, por meio dos sistemas integrados da COPASA: Sistemas Várzea das Flores, Serra Azul e Rio Manso. Além de água para o abastecimento público, a bacia do rio Paraopeba fornece agregados finos para a construção civil (areia e argila), pedras ornamentais (ardósia), e minério de ferro. Enquanto o ambiente urbano é construído e abastecido com tais insumos, no meio rural, muitas vezes o que resta são passivos ambientais e problemas sócio-econômicos. No entanto, a poluição das águas é maior conseqüência dos arranjos e desarranjos dos ambientes urbanos e rurais.
Com um território de 13.643 km2 e 537 km de rio, a bacia do rio Paraopeba é “alongada” em sua forma. Das nascentes em Cristiano Otoni até a foz em Felixlândia, no lago de Três Marias, a natureza revela diferentes características físicas, bióticas, climáticas, econômicas e de ocupação. Percebe-se menores altitudes, maiores temperaturas e menor densidade demográfica do Alto para o Baixo Paraopeba. No aspecto econômico, as atividades também são distintas nas três regiões da bacia: Alto, Médio e Baixo Paraopeba.
No Alto Paraopeba, onde estão localizados municípios como Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Ouro Branco, Jeceaba e Belo Vale, as atividades relacionadas com mineração e siderurgia são as mais expressivas. Algumas áreas dessa região estão inseridas no Quadrilátero Ferrífero, com jazidas de minerais, sobretudo o Ferro, de excelente qualidade.
Na região do Médio Paraopeba, onde estão localizados vários municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Betim, parte de Contagem, Ibirité, Sarzedo, São Joaquim de Bicas, Igarapé, Juatuba, Mateus Leme, Florestal, Esmeraldas, Mário Campos e Brumadinho, etc.) há uma rica diversidade industrial, com destaque para grandes indústrias dos ramos automobilístico, petroquímico e alimentício. A mineração de Ferro também está presente nessa região, sobretudo nas serras de Itatiaiuçu, Serra Azul e Farofas, que ainda pertencem ao Quadrilátero Ferrífero. Há expressivas minerações de areia na região de Esmeraldas, e produção de hortaliças e em Sarzedo, Igarapé, Mário Campos e Rio Manso.
Na região do Baixo Paraopeba, onde se situam municípios como Sete Lagoas, Paraopeba, Caetanópolis, Fortuna de Minas, Maravilhas, e parte de Curvelo, Pompéu e Felixlândia, a ocupação é mais rarefeita, e as atividades econômicas se relacionam com a extração de ardósia e produção de biomassa (eucaliptos) para siderúrgicas da região. É uma região com potencial desenvolvimento no ramo energético, sendo visada para a geração de energia hidrelétrica (uma grande unidade, a UHE Retiro Baixo, encontra-se em fase de instalação no rio Paraopeba, no município de Pompéu), exploração de gás natural e agronegócio sucroalcooleiro.
QUALIDADE DAS ÁGUAS DA BACIA
As marcas deixadas pelo homem ao modificar a bacia do rio Paraopeba ao longo dos séculos são lidas nos resultados do monitoramento da qualidade das águas do rio Paraopeba e seus afluentes. Esse monitoramento, tal como o resultado de um hemograma, revela que o ser-vivo “rio Paraopeba” está doente. Algumas das substâncias encontradas em várias das 30 estações de monitoramento espalhadas pela bacia, numa série de 12 anos de monitoramento (em campanhas trimestrais) são prejudiciais à saúde humana e à biodiversidade.
Esse monitoramento é realizado pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM, por meio do Projeto Águas de Minas. O IGAM avalia os resultados segundo o Índice de Qualidade das Águas – IQA e o Índice de Contaminação por Tóxicos – CT. Tais índices consideram vários parâmetros simultaneamente. Todavia, o IQA e o CT não revelam claramente as concentrações de determinadas substâncias como os metais pesados. Assim, para o Plano Diretor das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba, realizou-se uma análise individual de determinadas substâncias ao longo do rio e seus afluentes, permitindo uma maior compreensão das relações de causa e efeito entre as atividades presentes na bacia, a poluição das águas, e possíveis conseqüências à biota e sociedade consumidora das águas.
Para Costa Val, as avaliações feitas para o Plano Diretor permitem um maior conhecimento da realidade da bacia, mas ainda é necessário aprofundar esse conhecimento, identificando as fontes de poluição. Também é preciso avaliar se há substâncias que estão presentes naturalmente nas águas devido às características do solo, e diferenciá-las daquelas que decorrem de interferências humanas. O monitoramento feito atualmente registra apenas quatro momentos no ano, e o auto-monitoramento que as empresas fazem de seus efluentes são inacessíveis nos órgãos públicos. Para ele, é preciso enriquecer as amostragens de qualidade de água, cobrindo um maior número de “momentos” analisados, além de um maior número e uma melhor localização dos pontos de coleta.
Algumas substâncias tóxicas encontradas no rio Paraopeba: Metais Pesados
Arsênio (As)
O Arsênio (As) é um usado na indústria metalúrgica e de fabricação de condutores elétricos. Também pode estar presente em determinados tipos de tintas, inseticidas e herbicidas. Segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, o Arsênio é prejudicial em concentrações superiores a 0,01 mg/l. Essa concentração ocorreu em vários locais e momentos registrados na série de monitoramento, que analisa a ocorrência de arsênio apenas duas vezes no ano. As maiores concentrações ocorreram nos períodos chuvosos, nas campanhas de fevereiro.
O arsênio foi encontrado em dez dos doze pontos de monitoramento situados ao longo do rio Paraopeba. As exceções são nas estações próximas à nascente e à foz do rio Paraopeba, que foram implantadas em 2007. Alguns afluentes como o rio Camapuã, o rio Maranhão, o rio Veloso, o ribeirão Catarina, o ribeirão Casa Branca, o rio Betim e o ribeirão dos Macacos também tiveram ocorrências de Arsênio em valores igual ou superior ao limite indicado pela OMS, que também é o adotado em Minas Gerais (Deliberação Normativa Conjunta CERH-COPAM/MG no. 01/2008). O local em que se deu o maior número de violações registradas pelo monitoramento no leito do rio Paraopeba foi Fecho do Funil, e a maior concentração registrada foi no rio Paraopeba na localidade de Melo Franco: 0,08 mg/l, ou seja, oito vezes maior que o limite legal, em fevereiro do ano 2000.
Um evento de destaque foi registrado na campanha de monitoramento de fevereiro de 1998, quando em todo o leito do rio Paraopeba foram registradas concentrações de 0,05 mg/l, cinco vezes superior ao limite legal. Depois dessa data, vários eventos com altas concentrações foram registrados, alguns muito recentes.

Registros mínimos, médios e máximos de Arsênio nos doze pontos ao longo do rio Paraopeba, de 1997 a 2008. As denominações do eixo x do gráfico referem-se à cidade onde o ponto de monitoramento está localizado e a distância em relação à nascente. Fonte dos dados brutos: IGAM, Projeto Águas de Minas.
Segundo Borba (2002)[1], o Arsênio é encontrado nos depósitos de ouro do Quadrilátero Ferrífero. Em seus estudos na bacia do rio das Velhas, vizinha do rio Paraopeba, foram identificadas contaminações em vários cursos d’água, o que foi atribuído pelo autor à atividade mineraria de ouro. No caso da bacia hidrográfica do Rio Paraopeba, não há estudos específicos que permitam atribuir a ocorrência de arsênio às atividades minerarias de ferro ou outros metais, ou mesmo às erosões. Todavia, observando-se os locais onde o metal foi identificado na água, é possível suspeitar que haja essa relação de causa. Springway (2004), citado por Macêdo (2004)[2], o Arsênio pode ser encontrado naturalmente no solo.
O Arsênio tem efeitos tóxicos, agudos ou crônicos no organismo humano, além de efeitos carcinogênios[3] na pele, pulmão, próstata, bexiga, rim e fígado. A ingestão de 100 mg envenena seriamente o organismo e seu efeitos são cumulativos, ou seja, passam de um nível para outro na cadeia alimentar, acumulando. Apesar de nem todas as análises de água terem registrado violações dos limites legais de Arsênio, o fato de algumas ocorrências graves e recorrentes terem sido identificadas nas ínfimas duas campanhas anuais nos leva a atentar para a necessidade de monitorar melhor a ocorrência do metal, saber se há pessoas e animais consumindo dessa água, quais são as reais fontes de lançamento ou carreamento do metal, etc.
Para Costa Val, o objetivo de trazer esses dados ao conhecimento da população não é alarmá-la para um possível cenário de contaminação das águas, e sim despertar a sociedade e o poder público para a necessidade de se conhecer, monitorar, incentivar a auto-regulação por parte de empresas que possam estar lançando Arsênio em seus efluentes, e direcionar investimentos efetivos para a recuperação da bacia hidrográfica.
Alumínio (Al)
O Alumínio é um metal usado em várias atividades do cotidiano. Na água, a concentração limite definida por meio de Deliberação Normativa corresponde a 0,10 mg/l. Na bacia do rio Paraopeba, o monitoramento do alumínio na água é recente (a partir de 2008), mas, mesmo com um curto histórico, foi possível identificar que todos os resultados, em todas as 30 estações de monitoramento foram iguais ou superiores ao limite legal, sendo que em algumas estações a violação superou muitas vezes o limite legal.
Esses casos extremos correspondem ao rio Paraopeba a jusante de Jeceaba (após receber os rios Maranhão e Camapuã-Brumado), e o rio Macaúbas, próximo a sua foz no rio Paraopeba, no município de Bonfim. Nesses dois pontos, a concentração superou em 13 vezes o limite legal. No ribeirão dos Macacos, registrou-se uma ocorrência 04 vezes superior ao limite, e no ribeirão Grande e no rio Paraopeba a jusante do ribeirão Sarzedo (próximo a São Joaquim de Bicas), os valores registrados extrapolam em quase 200% o limite legal.
De acordo com estudos recentes, o Alumínio possui propriedades neurotóxicas, tendo relação com doenças como Alzheimer e demência senil. Nos ossos, o alumínio concorre com o cálcio, fazendo com que o organismo elimine o cálcio, causando “osteomalacia”, ou seja, amolecimento dos ossos.
Após reagir com alguns elementos, formando compostos, como o Cloreto de Alumínio (AlCl3), torna-se extremamente tóxico para os ovos de peixes e algas, e tóxico para peixes que se alimentem desses ovos ou dessas algas.
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Registros mínimos, médios e máximos de Alumínio nos doze pontos ao longo do rio Paraopeba, de 1997 a 2008. As denominações do eixo x do gráfico referem-se à cidade onde o ponto de monitoramento está localizado e a distância em relação à nascente. Fonte dos dados brutos: IGAM, Projeto Águas de Minas.
Chumbo (Pb)
O Chumbo é um metal utilizado na fabricação de baterias, cabos, tintas e corantes, cerâmica e munições. Sua liberação na natureza se deve, em muito, pela queima de combustíveis fósseis, como a gasolina. Segundo a História, as tubulações de água usadas no Império Romano eram feitas de chumbo, o que ocasionou a contaminação da água, e doenças como o saturnismo, levando à morte dos ricos romanos que a consumiam. Segundo Macêdo (2002), citado por Macêdo (2004), o chumbo também era adicionado nos vinhos, na concentração de 15 a 30 mg/l. Por dia, os aristocratas romanos chegavam a ingerir de 160 a 250 mg de Chumbo, o que pode explicar os problemas neurológicos de vários imperadores mumificados.
Concentrações superiores a 0,1mg/l são prejudiciais para a fauna e flora aquática; entre 0,2 e 0,5 mg/l causam perdas na fauna. A exposição crônica ao chumbo afeta o sistema nervoso central, causando tonturas, irritabilidade, dor de cabeça, perda de memória, entre outros. Também pode causar deficiências musculares, inflamação gastrointestinal, vômitos, diarréias e provocar câncer.
Pelo monitoramento da qualidade das águas na bacia do rio Paraopeba, mesmo com coletas muito rarefeitas (apenas duas por ano), o Chumbo foi encontrado todas as vezes em valores muito próximos ou iguais ao limite legal de concentração, que é de 0,01 mg/l (DN CERH-COPAM no. 01/2008). Houve várias ocorrências, de três a oito vezes superiores o limite legal, sendo que todas essas violações ocorreram no período chuvoso, exceto dois registros no ribeirão dos São João, no município de Paraopeba, em outubro de 1997 e abril de 1999.